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Nessa sociedade, ditada com ordem e progresso pelos poderosos, os meios de exclusão se ampliam, institucionalizam, burocratizam, formalizam, legalizam, cientificizam e reorganizam a todo o momento. Ordem essa que apenas admite o dado, e não o não-esperado. Uma ordem que, para ser garantida como tal, cria mecanismos de eliminação de sujeitos, como se representassem corpos estranhos e invasores dentro de um organismo. Progresso esse que produz pobreza em série.

A tecnologia e a pobreza, o progresso e a desigualdade social, a natureza e a urbanização, a cultura formal e a sabedoria do povo, por exercerem funções opostas, se confrontam e se esbarram constantemente. O progresso ganha formas e se contagia desenfreadamente pelo país. Na lógica do progresso, a pessoa com epilepsia e/ou portadora de deficiências, sem carteira de trabalho assinada, certificados, propriedades, é descartada, tal como uma sucata ao ser friamente jogada numa caçamba. O discurso político sobre o progresso se tornou tão predador, a ponto de representar uma estética do pesadelo.

Os meios de exclusão aparecem intensamente nos momentos em que pessoas com epilepsia se põem em busca de elementos de realização pessoal, como a dignidade, o trabalho, o respeito, o namoro, o casamento, o lazer, a qualidade de vida. E isso demonstra o quanto esses poderosos querem esquecer, negar e ocultar as diferenças sociais, físicas, psicológicas e espirituais da humanidade, como se pudessem botá-las nas sombras. Mas, a epilepsia, assim como as deficiências, precisa sair das sombras e ganhar uma significação de convivência harmoniosa. E, assim, transcender a opinião punitiva e vigilante da atual sociedade.

A epilepsia é uma condição neurológica crônica, e não uma doença. Ao invés de estigmatizar, ou seja, marcar uma pessoa com significados pejorativos e negativos, é preciso unir as forças e intensificar a crítica contra os preconceitos e os meios de exclusão. Essa condição neurológica não pode ser tratada de modo banal, porque diz respeito ao cotidiano de grande parte da população mundial. Dom Pedro I, Napoleão Bonaparte, Machado de Assis e Joana D'arc, entre os exemplos, manifestavam crises de epilepsia. E isso comprova que a epilepsia não é sinônimo de ignorância, pouca inteligência ou inferioridade. Muitos gênios da humanidade passaram pela epilepsia. No entanto, a sociedade, por meio da consciência predadora, quer reprimir qualquer situação não-controlável, seja uma crise de epilepsia ou uma manifestação de esquizofrenia. A consciência predadora apenas admite os ditos normais e, por isso, o diferente é considerado como desajustado diante dos moldes de controle, estabelecidos pela produção em série de posicionamentos elitistas.

Os detentores do poder querem que apenas uma minoria apadrinhada seja vista e aceita como padrão, por estar em conformidade com o que entendem por certo. E, na maioria das vezes, o povo aceita essas determinações e, muitas vezes, pratica as mesmas atitudes adotadas pelos que controlam o poder. Isso ocorre porque o povo, na maioria dos casos, não tem acesso a uma consciência crítica, mas, sim, a fantasias que seguem a mesmice conservadora.

Os instrumentos de poder fazem com que esses, com muita facilidade, se aposentem e conquistem propriedades tão ostensivas quanto às dos faraós. Ora, os poderosos querem que o povo não pense, reaja ou provoque mudanças. Querem pessoas que aceitem passivamente tudo, sem questionar, sem manifestar suas forças diante da falta de oportunidades e do abismo que divide os poderosos e os que estão à margem da sociedade.

É preciso pensar em mudanças. E essas mudanças precisam atingir tanto o comportamento das pessoas com epilepsia, como também a cultura empresarial, principalmente em relação à seleção de funcionários. O INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), muitas vezes, alega que a pessoa com epilepsia está capacitada para trabalhar. E os empregadores, durante a entrevista, de modo geral, alegam que não. E a epilepsia não está na lista legal de deficiências, ou seja, tal condição neurológica não gera cotas ou outros tipos de amparos sociais e benefícios às pessoas acometidas. E o que faz a pessoa com epilepsia? Tal pessoa, na maioria das vezes, parte para o trabalho informal.

As empresas precisam criar um ambiente de trabalho com uma proposta ética de inclusão social, longe das visões preconceituosas. Proposta que não contenha um tom caduca nem demagogo. Os programas sociais e as campanhas das associações, ONG's (Organizações Não Governamentais) tentam estimular mudanças nas relações sociais entre a empresa, o poder público e a pessoa com epilepsia. Com as ações das ONG's, as empresas passam a mudar a postura de contratação de funcionários. E isso, consequentemente, reflete no ambiente interno da empresa e até no comportamento dos demais trabalhadores. A ONG ASPE (Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia), milita em prol de mudanças nas relações entre as pessoas com epilepsia e as sem. Segundo a ASPE, no Brasil, é estimado que existam três milhões de pessoas com epilepsia. E, a esse número, somam-se 300 novos casos por dia. Aproximadamente 50% dos casos de epilepsia tem início na infância e adolescência.

Os programas sociais, ao estimularem a aceitação das diferenças e o equilíbrio dinâmico entre os aspectos biopsiossociais das relações do ambiente de produção, fazem com que o trabalhador com epilepsia passe a ter a impressão de estar acolhido. Os trabalhadores com epilepsia querem vivenciar sensações de realização profissional e pessoal não só na empresa, mas, também, em casa e na comunidade. Para isso, é preciso gerar visibilidade social e, ao mesmo tempo, incentivar a autoestima e a motivação dessa pessoa, de uma maneira universalista e inclusiva.

Se não ocorrer mudanças de paradigma na lógica produtiva, as empresas, lentamente, vão se submeter a uma condição irreversível de autodestruição. O trabalho do homem precisa ganhar novos significados sociais e culturais. A exclusão social do trabalhador com epilepsia é uma atitude irresponsável, que gera desequilíbrios nas relações humanas. Os resultados do trabalho, enquanto atividade de criação da humanidade, precisam estar em posição de igualdade em relação ao bem-estar e à dignidade do trabalhador.

Acima de tudo, é necessário humanizar os processos e representações sociais que envolvem a vida da pessoa com epilepsia. É preciso revisar as formas usadas para organizar os ambientes internos das empresas. As novas formas de organização devem gerar proximidade e não distanciamento.

O trabalhador com epilepsia, quando isolado e desestimulado, não tem prazer em trabalhar e, muitas vezes, fica depressivo por se sentir desamparado e, ao mesmo tempo, pressionado a produzir continuamente. Mas, se a pessoa com epilepsia tem oportunidade de dialogar com o médico de saúde do trabalhador e com os demais sobre seus anseios de bem-estar psicológico, ele consegue, muitas vezes, não só se sentir aliviado e com um conforto interno, mas, também, percebe que há pessoas com o intento de cuidar. E, assim, o ambiente de trabalho se torna uma extensão de sua comunidade familiar, de modo que fique evidente a vontade do grupo empresarial em colaborar com o desenvolvimento integral de todos.

Quando o trabalhador com epilepsia sente que as ações dos médicos, das associações, das ONG's, das empresas, dos programas sociais e das campanhas não são obsoletas nem ludibriantes, mas, sim, iniciativas de cuidado, concórdia e respeito com o seu bem-estar, ele passa a querer contribuir com esse processo. E, assim, consequentemente, a produtividade melhora, pois o trabalhador percebe na empresa uma possibilidade de desenvolver as habilidades. E, dessa maneira, suas ações, por estarem revestidas de contentamento, se expressam em resultados primorosos para a empresa. E esses resultados se tornam reflexos de uma atuação integral e dinâmica, desenvolvida e organizada pela união sustentável de inteligências e sensibilidades, e não de egoísmo, rigidez, maldade, individualismo e intolerância.

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A epilepsia é a condição neurológica crônica mais comum em todo o mundo e afeta todas as idades, raças e classes sociais. Impõe um peso grande nas áreas psicológica, física, social e econômica, revelando dificuldades não só individuais, mas também familiares, escolares e sociais, especialmente devido ao desconhecimento, crenças, medo e estigma.

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