Notícias

O que já mudou na pesquisa sobre epilepsia com os dois anos e meio de programa.

Por: Fábio Mury
Editora: Renata Armas
Diretor de redação: Rodrigo Cunha

 

Multi-institucionalidade e multi-disciplinaridade de estudos sobre o cérebro. Essa é a proposta do programa Cooperação Interinstitucional de Apoio à Pesquisa sobre Cérebro (CInAPCe), lançado oficialmente em abril de 2007. Em novembro do mesmo ano, foi inaugurado o site oficial do CInAPCe: www.cinapce.org.br. De lá para cá, a rede cresceu e hoje é composta por seis centros de pesquisa. Em quatro deles (Unicamp, USP de Ribeirão Preto, USP de São Paulo e Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein), há aparelhos de ressonância magnética de 3 Tesla, os mais avançados para estudos com humanos. Outro centro, localizado na USP de São Carlos, possui um equipamento de ressonância magnética para realização de estudos em modelos animais, em colaboração com grupos de pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Toda essa rede surge a partir da necessidade de abordar um problema biológico extremamente relevante e complexo, combinando a vocação profissional de grupos de pesquisa com experiências distintas e complementares. O foco de estudo para o programa CInAPCe é a epilepsia, devido ao seu impacto na saúde pública do país. E os principais objetivos dos centros são: conduzir pesquisa de alta qualidade, desenvolver novos métodos para processar e analisar imagens de ressonância magnética, além de desempenhar um papel fundamental na difusão de programas para o treinamento multi-institucional de estudantes e pesquisadores.

Para que você conheça os avanços alcançados nesses dois anos e meio de programa CInAPCe, entrevistamos cada um dos coordenadores dos centros.

 

Na Unicamp

De acordo com Li Li Min, professor associado do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador de difusão do CInAPCe, a rede proposta já está consolidada e com todos os equipamentos funcionando. "Haverá avanços nas propostas concebidas no início da implementação do programa", garante Li Min, ressaltando a interatividade entre os grupos, como demonstrado no III Workshop CInAPCe, realizado na cidade de Ribeirão Preto (SP) entre 6 e 8 de agosto deste ano.

"Um dos grandes avanços do programa foi no âmbito psicossocial, a partir da cooperação entre cientistas e jornalistas, buscando informar de forma palatável, para o público em geral, o que é a epilepsia, tema central desse CInAPCe", informa o especialista. Nesse sentido, Li Li Min destaca o cumprimento de um dos pontos chaves desse consórcio de pesquisa, que é a difusão da produção científica. Para o coordenador, as perspectivas futuras são extremamente positivas, com destaque para a sustentabilidade da rede formada, permitido que esta reverbere o propósito de cooperação multidisciplinar, que deverá refletir em publicações de maior impacto no mundo acadêmico. O ganho imediato certamente serão melhorias no manejo terapêutico dos pacientes com essa condição neurológica, que é a epilepsia. "Mais ainda, com a sustentabilidade da rede, espera-se que o programa não seja apenas um modelo para o estado de São Paulo, mas, sim, uma rede nacional", enfatiza Li Min.

 

Na USP de São Paulo e no Albert Einstein

Para Carlos Alberto Moreira Filho, principal investigador do programa na Universidade de São Paulo (USP) – campus de São Paulo – e no Hospital Israelita Albert Einstein, nesses dois anos e meio do CInAPCe, houve um "efetivo avanço na integração das equipes de pesquisa, o que tem possibilitado uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar da epilepsia, tanto na área de investigação como nas de treinamento e educação". O pesquisador ressalta que já há uma adoção de novos protocolos de avaliação para os pacientes que empregam plataformas mais avançadas de imagem, implantadas graças ao CInAPCe. A curto prazo, será possível a melhoria na assistência as pessoas com epilepsia.

Tais avanços foram possibilitados graças ao esforço de toda a rede para a implementação e pleno funcionamento dos equipamentos, conforme destacado por um dos coordenados do programa, Li Li Min, da Unicamp. "Conhecendo mais a fundo os mecanismo causadores da epilepsia, será possível, a médio prazo, novas opções terapêuticas, principalmente para os casos de epilepsia refratária, em que o paciente não responde aos medicamentos utilizados para controlar a doença", destaca Moreira Filho. Para ele, o programa caminha para ser um grande consórcio de pesquisa em neuroimagem, que vai gerar conhecimentos e tecnologias aplicáveis não apenas em neurologia, mas em outras áreas da medicina, como a psiquiatria e a oncologia. Tais perspectivas confirmam os esforços dos integrantes da rede para torná-la sustentável e capaz de gerar conhecimento científico de ponta, além de ser um importante veículo de informação e difusão de ciência.

 

Na USP de São Carlos

Alberto Tannús, principal investigador da rede na USP de São Carlos, destaca que o programa CInAPCe está sendo elaborado desde 2000 pela equipe que o coordena atualmente e que deu passos significativos para transformar uma ideia em um fato real. Do ponto de vista técnico, o pesquisador destaca que alguns desafios foram superados e comenta que apenas recentemente foi instalado um dos equipamentos previstos para uma das diversas abordagens do problema da plasticidade cerebral, para o qual a epilepsia representa um grande desafio. "O último dos quatro sistemas de ressonância magnética previstos para concretizar as propostas de pesquisa originais (três deles obtidos com financiamento da Fapesp) foi instalado há cerca de um mês e encontra-se na fase final de testes de aceitação", destaca Tannús. Outro sistema para experimentação de ressonância magnética in vivo em pequenos animais encontra-se em operação na rede desde o início de 2009.

Por ter uma característica multimodal, outras técnicas de imagem, como tomografia por emissão de pósitrons (PET), tomografia computadorizada através da emissão de um fóton isolado (SPECT) e magnetoencefalografia (MEG) já estão previstas e aguardam suas respectivas fases de implantação, o que depende fundamentalmente da disponibilidade de recursos para essas linhas de pesquisa. "Avanços significativos surgirão com a implementação de um sistema de animais com magneto de 4.7 Tesla, que já se encontra no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), com expectativa de ser instalado em 2010", ressalta Tannús.

Para o pesquisador, um ponto extremamente relevante é a inclusão de outras instituições do estado de São Paulo, como centros adicionais ou laboratórios associados, assim como instituições de outros estados. Alberto Tannús relembra um recente edital da Fapesp para projetos de pesquisa envolvendo a mesma temática da epilepsia, porém com a inclusão de uma cooperação conjunta entre pesquisadores de instituições dos estados de São Paulo e de Minas Gerais, substanciados com recursos da Fapemig e da própria Fapesp.

 

Na Unifesp

Para a pesquisadora Maria da Graça Naffah Mazzacoratti, principal investigadora do programa no Departamento de Neurologia Experimental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), nesse período de CInAPCe, houve um aumento substancial de verbas para as instituições envolvidas, contribuindo de forma expressiva para a melhora dos equipamentos de ressonância de determinadas instituições de pesquisa. "Com isso, há uma maior qualidade das imagens das áreas cerebrais avaliadas, permitindo melhores correlações com os dados clínicos obtidos dos pacientes", confirma Maria da Graça. Com a verba disponível, também ficou mais fácil a aquisição de insumos para a pesquisa, permitindo, assim, maior fluxo de alunos, desde a iniciação científica até o pós-doutorado, financiados por bolsas concedidas pela Fapesp. A iniciativa tem viabilizado um número maior de publicações em revistas indexadas, realizados por todos os centros de pesquisas envolvidos.

Para Maria da Graça, é notável uma melhora no atendimento aos pacientes, uma vez que o grupo de trabalho está mais integrado, possibilitando uma visão mais ampla dos dados clínicos e cirúrgicos dos pacientes. Na Unifesp, a pesquisadora destaca o trabalho para melhorar a associação entre a cirurgia e o estudo experimental do tecido removido, pelos diversos grupos de pesquisa.

Por último, ela acredita que há a necessidade de uma maior integração entre os pesquisadores das diversas instituições envolvidas, uma vez que isso só tem ocorrido em uma reunião anual.

 

Na USP de Ribeirão Preto

De acordo com João Pereira Leite, professor titular e presidente da comissão de pesquisa da USP Ribeirão Preto, avanços significativos foram obtidos nesses últimos dois anos, com destaque para os três workshops já realizados, nos quais foram apresentados o desenvolvimento dos projetos de cada centro. Leite ainda destaca os grandes avanços ocorridos nos últimos doze meses, tendo nesse período finalizado a implementação dos aparelhos de ressonância de alto campo. "Hoje todos os centros estão em condições de desenvolverem projetos comuns, utilizando os mesmos protocolos para aquisição das imagens", garante.

Para o pesquisador, esta fase de consolidação da rede é de extrema importância e certamente trará benefícios às pessoas com epilepsia. Do ponto de vista clínico, os projetos que estão sendo desenvolvidos poderão melhorar o conhecimento sobre as diferentes síndromes epilépticas, com a possibilidade de melhores propostas terapêuticas. Com os equipamentos de ressonância magnética de alto campo será possível obter melhor resolução das imagens das várias regiões do cérebro, permitindo um diagnóstico mais preciso. Além disso, aumenta a viabilidade de encontrar alterações no cérebro, que nos exames de neuroimagem mais antigos não eram possíveis de serem identificadas. Para João Pereira Leite isso representa uma grande conquista para os casos em que o paciente não consegue controlar suas crises com medicamentos. E para a pesquisa básica, permitirá que haja um melhor entendimento sobre os mecanismos de epileptogênese, isso é, os mecanismos pelos quais o cérebro, depois de uma lesão, passa a apresentar crises. Embora mais remotamente, o entendimento desses processos levará à descoberta de novas propostas terapêuticas.

Quem somos

A epilepsia é a condição neurológica crônica mais comum em todo o mundo e afeta todas as idades, raças e classes sociais. Impõe um peso grande nas áreas psicológica, física, social e econômica, revelando dificuldades não só individuais, mas também familiares, escolares e sociais, especialmente devido ao desconhecimento, crenças, medo e estigma.

SAIBA MAIS!